Por Hans van Wetering, maio 2009

Tudo é possível. Precisamente no dia em que teve lugar em Amesterdão a entrevista com os escritores José Eduardo Agualusa (Huambo 1960) e Ricardo Adolfo (Luanda 1974), é dado a conhecer o aparecimento de textos de Fernando Pessoa onde ele se pronuncia desdenhosamente sobre a Holanda. A Holanda, segundo Pessoa, era um país inferior, um país que nada acrescentou de essencial à civilização e que poderia deixar de existir sem grandes problemas, assim como a língua holandesa. Porque se trata apenas de um linguajar prescindível que fora da Holanda não é falado por mais ninguém; OK, pelos Bóeres na África do Sul, mas se têm que se valer destes...
Encontrámo-nos na chamada ‘Casa dos Escritores’ na Spui no centro de Amesterdão, onde, desde há alguns anos, escritores estrangeiros podem viver temporariamente e assim, longe do país de origem, trabalhar sem serem perturbados. Foi aqui que José Eduardo Agualusa durante seis semanas esteve a escrever o seu livro novo – Barroco Tropical. E foi também neste período que Agualusa e Ricardo Adolfo se conheceram e ficaram amigos. Adolfo trabalha no sector internacional da publicidade, vive há dez anos em Amesterdão e já publicou em Portugal uma colecção de contos e um romance – Mizé – entretanto traduzido em vários países.
Já escurecia no apartamento moderno (tons cinzentos neutrais, cozinha aberta com ilha) quando José Eduardo Agualusa se aproxima da janela e começa a ler a arremetida de Fernando Pessoa sobre a Holanda: “Ouve só o que ele escreveu:
‘Nós portugueses, somos um pequeno povo, mas um povo imperial, cuja língua alastrou por sobre o mundo, que criámos civilização, e não simplesmente a vivemos. Ingleses, franceses, italianos, alemães, espanhóis, portugueses — todos criámos civilização, os outros viveram a civilização que qualquer de nós criou. A maior conquista que os impérios fazem é a conquista da posteridade. A conquista da posteridade, a língua imperial a grava nos muros da eternidade, a latteras de fogo. A Holanda quase que criou civilização, mas a sua obra histórica, de relevo comercial e não cultural, não teve força para subsistir culturalmente. É como se não houvesse existido. Só os Bóeres, na extrema África, a registam. São óptimos lavradores e lêem a Bíblia todos os domingos. Vivi e sei, infelizmente.’”*
RA: Mas ele nasceu lá, em África?
JEA: Não, não nasceu lá. Foi para África em pequeno.
RA: Mas porque é que ele foi parar à África do Sul?
JEA: Porque o pai dele era cônsul. O padrasto, não o pai. Depois nunca mais saiu
do Chiado. Na vida inteira ele só foi uma vez de comboio até Santarém, acho eu, e voltou.
RA: Ele ganhava a vida com publicidade sabias? Escreveu o slogan mais famoso para Coca Cola – ‘primeiro estranha-se, depois entranha-se’ – que nunca foi aprovado. Era freelancer, trabalhava para o Manuel Martins da Hora (A Hora mais tarde deu origem à McCann). Dizem que cada vez que o Fernando Pessoa estava teso ia ter com o Martins da Hora, que lhe dava uns briefings para fazer.
Fernando Pessoa nunca pôs os pés na Holanda, o Ricardo já cá mora há dez anos. Como é que veio cá parar?
RA: Eu saí de Lisboa por algum cansaço com Lisboa. Gosto de Lisboa, só não gosto de lá viver. Lisboa é uma cidade que me cansa facilmente. Tem a ver com as longas horas do trabalho, com o trânsito, com a burocracia. É uma cidade que funciona contra ti.
JEA: Em contrapartida, é difícil não gostar de Amesterdão. A estrutura da cidade é muito fácil. Dá para ir a pé para todo o lado. Não há muito trânsito nas ruas. É uma cidade muito amigável, muito acolhedora, não é uma cidade que dificulta a vida às pessoas.
Mesmo não percebendo a língua?
RA: Eu realmente não percebo o holandês, mas toda a gente cá fala inglês. Claro
que viver há dez anos em Amesterdão sem aprender a língua não é a postura mais inteligente deste mundo. Ficamos sempre de fora, há muitos acontecimentos que nos escapam ou são captados muito mais tarde.
JEA: Eu cresci numa cidade em que não percebia metade dos habitantes. Em Luanda fala-se crioulo, e várias outras línguas e dialectos. Para mim é normalíssimo viver num local onde não perceba a língua. É o meu meio- ambiente. E em Amesterdão ainda não encontrei ninguém que não falasse inglês. Tu já?
RA: Enquanto passares o tempo apenas no centro, sentado em esplanadas, não,
mas logo que tenhas que realmente viver cá e assumir a rotina diária é outra história. Mas existe realmente em Amesterdão um mundo em que o falar inglês é suficiente, e eu também me movo nesse mundo, mas é restrito. O dia-a-dia decorre em holandês.
Isso não dá origem a que te sintas a uma certa altura isolado?
JEA: Não, de maneira nenhuma. Nem sequer em relação à minha língua. A qualquer momento eu posso contactar os meus amigos através de mail ou telefone. Começo o dia lendo jornais portugueses e brasileiros na Internet.
RA: ........ e evidentemente os jornais ingleses e americanos. Além disso muitos dos meus amigos cá são portugueses ou angolanos.
JEA: Isto também tem a ver com globalização. As cidades cada vez se parecem mais umas com as outras: as mesmas lojas, as mesmas marcas, a mesma publicidade, em todo o lado igual. Cá, sinto na rua o mesmo cheiro a after-shave que sinto ao dobrar a esquina da minha casa em Luanda. Muitas regras e sinais de trânsito são internacionais. Sei onde tenho que ir, como é que as coisas funcionam, o que significam. Bem vistas as coisas, viajar realmente, descobrir o desconhecido é cada vez mais difícil. Além disso a nossa própria identidade tornou-se uma complexa identidade internacional. A mesma pessoa que lê literatura americana, cultiva em casa árvores bonsai, pratica judo e ouve música africana. Cada um de nós cria o seu próprio universo, constrói a sua própria identidade. Ela vem de todos os lados. Tornou-se corrente. Como diz um dos personagem em As Mulheres do Meu Pai: “Eu não tenho raízes, as árvores é que têm raízes.”
Globalização também significa que José Eduardo tem desde há muito tempo uma coluna no jornal O Público, onde nem sempre poupa Portugal com as suas críticas. Isso não dá origem a problemas?
JEA: Não, os portugueses são um povo particular. Os portugueses reagem mal a elogios, mas bem às críticas, eles gostam que as pessoas digam mal do país. O desporto nacional é dizer mal do país. Em Angola é mais complicado. Em Angola não se pode dizer mal do país, e muito menos fora (de Angola), mas os portugueses ficam preocupados se lhes fizeres elogios. Dizer mal do país já faz parte do carácter nacional. Mesmo os escritores são assim. Eça de Queirós referia-se a Portugal como sendo ‘esta choldra’. Por outro lado, os portugueses têm também tendência para exagerar o mal. Acho que Portugal há muito tempo que deixou de ser um país atrasado, mas os Portugueses continuam a falar do país como se assim fosse, cultivam isso.
O Ricardo concorda com isso?
RA: Existe uma tendência para o pessimismo. Acho que esse pessimismo tem a ver com um complexo de inferioridade, que realmente em Portugal é enorme. Mas todos os povos o têm. Os holandeses, os alemães. Talvez só os americanos não o tenham. Mas há muitas coisas boas em Portugal. Não é preciso falar mal de Portugal. Isso irrita-me.
JEA: Esse papel do coitadinho, esse pessimismo irrita-me um pouco, porque as pessoas têm bons motivos de orgulho, entre outras coisas a história. Acho por exemplo que Portugal em termos literários está a atravessar uma fase muito boa, que tem precisamente a ver com um grande investimento na cultura e na educação. É uma coisa em que não se fala muito, mas Portugal tem uma das melhores redes de bibliotecas públicas da Europa. Qualquer pequena cidade tem uma boa biblioteca pública e isso fez aumentar o número de leitores jovens. E isso também fez com que aparecessem novos escritores. Há uma nova geração muito boa. Gonçalo Tavares é um grande escritor, e o Peixoto também.
O Tavares e o Peixoto têm uma ligação angolana. Mas há outros. Existe uma onda angolana na literatura portuguesa?
JEA: É verdade, o Valter Hugo Mãe também vem de Luanda, a Filipa Melo nasceu no Cuíto, o Ricardo...

O enredo de Mizé passa-se nos subúrbios de Lisboa, na Linha de Sintra. Mas o Ricardo escreveu o livro em Amesterdão. Não foi difícil?
RA: Foi, mas eu cresci nos subúrbios de Lisboa. Pelo menos vinte anos da minha vida passei-os com o tipo de personagens que retrato no meu livro, eu também faço parte daqueles personagens. Tudo aquilo é natural e quando volto a Lisboa tenho o cuidado de constantemente recolher material para depois escrever, tenho sempre de ter pelo menos uma base experiencial.
Mizé foi visto como uma tragédia suburbana. Uma tragédia tipicamente portuguesa, ou os subúrbios são iguais em todo o lado? Mizé também poderia ter ocorrido na Holanda?
RA: Acho que sim. Acho que há diferenças específicas no que se refere ao dia a dia, mas também há muitas semelhanças. A vida nestes subúrbios no mundo ocidental é parecida, pelo menos como nós a conhecemos. Dá-me a sensação que pelo menos na Europa todas as zonas suburbanas funcionam um pouco à volta da cidade, não é? Andam ali às voltinhas e nunca conseguem chegar ao centro. Há uma falta de esperança que é típica dos subúrbios, mas há também uma alegria própria, há uma forma de estar diferente, há um humor próprio porque tudo funciona contra ti. Levantas-te de manhã e está tudo a funcionar contra ti. Vives longe da estação, tens que ir a pé, tens que pôr os putos na creche e levá-los à escola, a seguir enfias-te no comboio ou nos engarrafamentos diários. Isto é a vida em volta das muitas cidades e és obrigado a arranjar uma forma de a encarar para te poderes levantar todas as manhãs. Isto engendra uma loucura muito específica, uma negação que te faz avançar. De outra forma acho que ficarias em casa...
Os diálogos predominam nos livros de Ricardo, e sobretudo o calão juvenil. O Ricardo não terá, longe de Lisboa, receio de utilizar uma linguagem que na realidade cedo ou tarde vai deixar de ser falada, visto este tipo de linguagem mudar rapidamente?
RA: Sim, isso é um problema. Se eu for escrever sobre personagens mais jovens tenho que fazer alguma pesquisa porque sei que a linguagem evolui, muda, mas acho que da minha idade para cima e com base naquilo que leio e ouço não tem mudado assim muito. Por enquanto não sinto assim muito essa distância com o novo calão. Não tenho medo nesse aspecto, mas faço um esforço para ir lá passar algum tempo e quando tenho cá os amigos é óbvio que dou atenção especial à nova gíria.
JEA: Como um parasita.
RA: (Rindo-se) Sim.
É do conhecimento público que José Eduardo vive em vários continentes e viaja muito. Durante anos teve mesmo apenas um endereço electrónico. Preocupa-se também com estas coisas – da linguagem?
JEA: Não sei que dizer acerca disto porque a minha linguagem é mais clássica. Não tenho muito esse problema do calão porque não o uso muito especificamente. Mas também acho que o facto da pessoa estar fora ao regressar dá mais atenção a certas coisas, quero eu dizer, vê melhor certas coisas que já se tornaram naturais para quem está dentro, para quem vem de fora estas coisas saltam à vista. Portanto, às vezes o olhar de fora para dentro é útil. Por isso talvez o Ricardo escreva um dia sobre a Holanda, sobre tudo aquilo que vê.
RA: Sim, se calhar quando sair daqui...
JEA: ... começas a escrever sobre a Holanda.
RA: Acho que isto que o José Eduardo acabou de dizer é bastante importante, ganhar distância, ganhar frieza para obter um olho clínico. Mas também não é verdade que apenas com distância se possa escrever sobre um determinado assunto. No meu livro novo, Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas, que vai ser editado em Portugal no final do ano, escrevo sobre uma família que vive ilegalmente num país onde não percebe ninguém e que um dia apanha o metro, só que o metro avaria-se e fica a meio caminho. A família perde-se e já não consegue encontrar a própria casa. É óbvio que isto tem a ver com a minha situação de emigrante há tantos anos. Tive cá uma situação parecida com o tema do meu livro: estava no eléctrico e o eléctrico não sei porque razão parou, 90% das pessoas saíram e três ou quatro ficaram sentadas – eu e mais dois ou três emigrantes. Os estrangeiros ficaram a olhar uns para os outros à espera que o eléctrico se pusesse em marcha, só mais tarde soubemos que se tratava de uma avaria comunicada pelo condutor. Isto faz parte do ser emigrante, não falar a língua, não perceber nada. Há milhares de coisas que eu fui buscar a esta experiência de viver fora do país.
Como é que isto funciona com o José Eduardo? Os seus livros são frequentemente catalogados como Realismo Mágico. No romance O Vendedor de Passados o narrador é uma osga. Surgem figuras estranhas e fantasmagóricas, acontecimentos ‘mágicos’. O José Eduardo disse algures que atrai estas coisas. Talvez já lhe tenha acontecido algo do género durante a sua permanência em Amesterdão? Algo que possa ter ido parar às páginas do livro que está a escrever em Amesterdão?
JEA: Aconteceram-me realmente alguns casos estranhos. E se eu ficasse mais tempo na Holanda é certo e seguro que um destes dias ainda me cruzaria com o judeu errante. Mas não utilizei estas experiências no meu novo livro. Mas posso revelar que o meu livro acaba em Amesterdão. É sobre um escritor. Estou agora a escrever as últimas páginas. No livro a figura principal escreve as últimas páginas de um livro, aqui, neste apartamento na Spui, no mesmo sítio onde nos encontramos com os textos do Fernando Pessoa à nossa frente.

Pessoa escreveu que a língua holandesa estava condenada a desaparecer, ao contrário do português, claro. O que é que vocês pensam quando ouvem agora o holandês na rua? Têm pena que não tivesse desaparecido? O holandês é assim tão feio como se afirma por vezes?
JEA: Há sotaques horríveis, há tipos de sotaques sociais até muito feios. Há sotaques em que as pessoas também comem as vogais. Em Portugal comer vogais é normal. Esperemos que com a entrada dos imigrantes africanos e brasileiros isso mude um pouco. É bom lembrar que o sotaque brasileiro é o sotaque português de outrora, de há quinhentos anos. Sobre este assunto o professor Agostinho da Silva tinha uma teoria muito interessante. Dizia que as línguas se afeiçoam às paisagens e que em paisagens abertas a língua tende a abrir-se, e em paisagens fechadas tende a fechar-se. No caso do português a teoria funciona, porque realmente em Portugal o sotaque fechou. E mesmo em África, nos espaços fechados fechou. Em Cabo Verde fechou. Como por outro lado nos Açores e na Madeira, por serem espaços fechados. Isso dificulta a comunicação. Quando por exemplo o Caetano Veloso imita o sotaque português, eu continuo a compreender tudo o que ele diz. Porque ele imita o sotaque português, mas pronuncia as vogais abertas. Mas quando o Sérgio Godinho, de quem eu gosto muito, canta no Rio, ninguém entende. Os brasileiros pensam que ele está a falar russo. Até os portugueses têm dificuldade em o entender. Eu tenho dificuldade em o entender. Fechar o sotaque dificulta o entendimento da língua. E depois é a má dicção. Os portugueses de uma forma geral têm uma má dicção.
Será que o Ricardo está de acordo?
RA: Não, não estou de acordo. Isso também se verifica noutros países, no Reino Unido onde também vivi nota-se isso. Acho que é uma questão de educação. E parece-me que também se pode dizer que existe uma tendência de comer consonantes.
JEA: Mesmo em Angola há sotaques muito feios, há sotaques que distorcem a língua mesmo com as vogais abertas. Creio que o mesmo acontece com o holandês. De certeza que deve existir um holandês bonito de ouvir. O holandês que ouço à minha volta não será o melhor exemplo.
RA: Em Amesterdão existem muitos tipos de sotaques diferentes. Mesmo não falando a língua, consigo perceber se alguém é de Amesterdão, e em caso positivo se a pessoa mora na parte sul ou se vem do bairro ‘Jordaan’. Assim como também consigo ouvir se uma pessoa é originária do norte ou do sul da Holanda. É evidente que não percebo nada, para mim é como se fosse música, apenas sons, e depois há tantas diferenças... Mas nunca soará tão bonito como a língua portuguesa.
JEA: Não, tão bonito como o português do Pessoa, sejamos honestos, isso é impossível.
*Fernando Pessoa, citado em Michaël Stoker. Fernando Pessoa: A ficção acompanha-me como a minha sombra. Edições IJzer. Utreque, 2009. Manuscrito retirado do Espólio de Fernando Pessoa, E3, Biblioteca Nacional, Lisboa. [bn e3].
Ricardo Adolfo, Mizé, Dom Quixote 2006
Ricardo Adolfo, Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas, Alfaguara (Grupo Santillana) 2009
José Eduardo Agualusa, Barroco Tropical, Dom Quixote 2009
Partes desta entrevista ja foram publicadas em NRC-Next, NRC- Handelsblad e VPRO-Gids
Com agradecimentos a José Carmo da Rosa pela traduçao da partes da entrevista

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